UX Design Manager Bruno Mota

O teu processo com sub-agents de IA tem 100 anos

Em 1983, Steve Jobs tentou explicar o que tornava os computadores mágicos.

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Em 1983, Steve Jobs tentou explicar o que tornava os computadores mágicos.

Disse que se conseguisse mover-se 100 vezes mais depressa que qualquer pessoa na sala, podia sair a correr, apanhar um ramo de flores, voltar, estalar os dedos e toda a gente acharia que era um mágico. Mas no fundo estava a fazer uma série de instruções muito simples, muito depressa. Só isso.

“I was basically doing a series of really simple instructions… but I could just do them so fast that you would think there was something magical going on.”

(“No fundo estava a executar uma série de instruções muito simples… mas conseguia fazê-las tão depressa que pensarias que havia algo mágico a acontecer.”)

É exactamente assim que funciona a IA quando está a construir uma app, site, texto ou slidedeck. A IA lança vários agentes individuais para cumprir uma tarefa pequena. Juntos, em paralelo, executam à velocidade da luz. Tu vês o resultado a aparecer no ecrã em segundos. Parece magia.

Mas magia e diferenciação não são a mesma coisa.

Henry Ford chegou lá primeiro

Ilustração de uma linha de montagem: peças a percorrerem uma sequência até formarem um automóvel.

Em 1913, Henry Ford introduziu a linha de montagem na produção de automóveis.

Até então, os automóveis eram construídos por um grupo de talentosos construtores, mas cada um fazia várias partes do veículo. Imagina uma equipa de 5 ou 6 a construir o mesmo carro, carro a carro.

Ford teve então uma ideia.

A ideia era simples: dividir este processo complexo em tarefas pequenas e repetíveis, atribuir cada tarefa a um operador diferente e deixar a linha de montagem correr. Isto foi revolucionário na altura.

Ford dizia:

“Nothing is particularly hard if you divide it into small jobs.”

(“Nada é particularmente difícil se o dividires em tarefas pequenas.”)

O resultado foi extraordinário. A Ford produzia carros mais rápido e mais barato do que qualquer concorrente. Assim, em 1926, a Ford fabricava metade de todos os carros vendidos no mundo.

A divisão do processo em pequenas aplicações especializadas e em sequência acelerou muito o processo. Faz-te lembrar alguma coisa?

Hoje, um sistema com sub-agentes de uma IA decompõe um problema de programação complexo em tarefas pequenas, atribui cada tarefa a um agente diferente, e deixa o processo correr. Em paralelo. À escala. Muito mais rápido do que qualquer developer a trabalhar sozinho ou um único agente a trabalhar em waterfall.

Henry Ford inventou os sub-agents. Só não tinha acesso ao Claude.

O problema do Ford T-Model

Automóveis idênticos a sair da mesma engrenagem, todos iguais.

Quando toda a gente tem acesso à mesma fábrica, os produtos ficam todos iguais.

As apps geradas com AI usam TailwindCSS e os mesmos blocos de UI de raiz. Usam estruturas de UX bem conhecidas e repetidas em centenas de produtos. O resultado é sempre muito semelhante: funcional, rápido de construir, e esteticamente indistinguível de tudo o resto.

Como os móveis da IKEA. Os móveis da Ikea trazem funcionalidade, modularidade e facilidade de montagem. Contudo, os espaços tornam-se também essencialmente iguais se não houver qualquer tipo de toque pessoal.

Passei três meses a construir um planeador de treinos de corrida com vibe coding. Cada vez que peço ao Claude para executar uma determinada tarefa usando sub-agent driven sem dar uma direcção clara de UX e estilo, o resultado é standard. Não mau. Standard. A fábrica funciona. Só que produz sempre o mesmo modelo.

E aqui está o problema que Rory Sutherland articula melhor do que eu conseguiria:

“It is much easier to be fired for being illogical than it is for being unimaginative. The fatal issue is that logic always gets you to exactly the same place as your competitors.”

(“É muito mais fácil ser despedido por ser ilógico do que por falta de imaginação. O problema fatal é que a lógica leva-te sempre exactamente ao mesmo sítio que os teus concorrentes.”)

A lógica dos sub-agents é impecável, mas leva toda a gente exactamente ao mesmo sítio.

A diferença entre 42 ms e uma frase

Há uma diferença entre um output e uma intenção.

Uma app de corrida pode recolher todas as métricas dos últimos meses e apresentá-las em gráficos, tabelas e comparações. Existem algumas dezenas no Github. A fábrica de IA faz isso bem. Muito bem, até. Mas se eu disser que estás com uma HRV média de 42 ms num gráfico de linhas com os dias, é possível que aches fascinante, mas não faças ideia do que isto quer dizer.

Se eu transformar isso numa frase: “O teu corpo está com necessidades elevadas de recuperação. Hoje devias repousar.”, ofereço-te a mesma informação com um registo completamente diferente. Um é apenas a compilação e amostragem de dados. O outro fala com o corredor.

Esse layer não sai da fábrica. Entra pela porta do design.

A fábrica produz o Ford T-Model. A intenção humana transforma-o naquilo que o utilizador precisa de receber.

A alternativa à eficiência não é mais eficiência

Uma grelha de barras iguais ao lado de formas orgânicas e coloridas.

Existe hoje um movimento que não é coincidência.

Qualquer turista que viaja pela Europa se queixa do mesmo: a gentrificação. Começa a ser tudo igual em todo o lado. Os mesmos sítios, as mesmas lojas, os mesmos produtos e também as mesmas gentes.

A arquitectura urbana que valoriza o orgânico em detrimento do brutalista. Os cafés com toque personalizado que resistem às grandes cadeias. Os sites que fogem dos blocos repetidos e se evidenciam exactamente por isso. O trabalho onde a presença humana é visível.

Não é saudosismo. É diferenciação.

Quando toda a gente tem acesso à mesma fábrica e produz ao mesmo custo, o que distingue não é a velocidade. É a intenção.

A General Motors percebeu a oportunidade quando redesenhou todos os seus modelos todos os anos, seguindo o conceito de moda, o que tornava possível saber de que ano era um determinado carro, enquanto que a Ford continuava a produzir o mesmo T-Model cada vez mais barato, mas igual todos os anos. A GM não tentou vencer a Ford no seu próprio jogo. Mudou o jogo. Em pouco tempo, a GM tornava-se o maior fabricante de automóveis do mundo.

A alternativa ao Ford T-Model não era um Ford T-Model mais eficiente. Era uma ideia diferente.

O AI bem utilizado, com curadoria humana cuidada e intencional, pode produzir experiências mais imersivas e mais diferenciadas do que alguma vez foi possível. Mas só se a direcção for dada. A fábrica não sabe para onde quer ir.

Uma nova era de cooperação

Este artigo não é uma crítica ao AI.

É um reposicionamento.

O AI já substitui parte do trabalho. A parte repetível, padronizável, sequenciável. A linha de montagem.

O que ainda não substitui é a pergunta antes da linha de montagem: o quê? Para quem? Porquê agora? Que emoção deve provocar? Que corner cases existem? O que acontece quando o utilizador não segue o happy flow?

Essa parte continua a precisar de uma pessoa. Com intenção.

O AI expande a nossa capacidade de produzir. A intenção humana define o que vale a pena produzir.

Não é uma competição. É uma cooperação.

Not better. Different.

02.06.2026

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