UX Design Manager Bruno Mota

Figma: especialistas em epiciclos

Durante séculos, os astrónomos usaram o modelo geocêntrico de Ptolomeu (a Terra no centro do Universo). Para fazer as observações astronómicas baterem certo com a teoria, os cientistas usavam uma ferramenta…

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Durante séculos, os astrónomos usaram o modelo geocêntrico de Ptolomeu (a Terra no centro do Universo). Para fazer as observações astronómicas baterem certo com a teoria, os cientistas usavam uma ferramenta matemática chamada epíciclos (círculos dentro de círculos que explicavam por que razão os planetas pareciam às vezes andar para trás).

À medida que os astrolábios e os telescópios primitivos melhoravam, os astrónomos começaram a notar inconsistências. Mas em vez de questionarem a premissa, o que é que faziam? Adicionavam mais epíciclos. A matemática tornou-se incrivelmente polida, complexa e esteticamente satisfatória para os académicos da época. A ferramenta matemática distorceu o pensamento dos astrónomos de tal forma que eles preferiam ajustar a realidade à fórmula do que aceitar o óbvio. Para os académicos da época, era progresso e justificava o mundo observado.

Não era. Era uma ferramenta que estava a distorcer o pensamento de uma geração inteira de cientistas.

O Figma e os epiciclos do design

Nos últimos anos, observei um padrão semelhante acontecer com os designers.

O crescimento do Figma como ferramenta central e a maturidade dos design systems trouxeram algo extraordinário: componentes prontos, tokens partilhados, consistência a grande escala. Era possível construir interfaces sofisticadas sem sair da ferramenta.

Mas aconteceu algo mais subtil. Quando o componente já está pronto, a tentação é começar a montar a interface antes de perceber o problema. O double diamond encolheu. Os esboços de baixa fidelidade desapareceram. O design tornou-se assembly.

E as limitações técnicas do Figma tornaram-se invisíveis de uma forma perigosa.

O Figma tem suporte fraco para responsividade. Não suporta Flexbox nem Grid de forma nativa. A animação é limitada. Numa altura em que a web explorava parallax, filtros avançados e transições ricas em CSS, o Figma não conseguia representar essas soluções. E o que a ferramenta não consegue representar deixa de ser considerado como opção.

Os designers adicionaram epiciclos: workarounds, instâncias dentro de instâncias, componentes bloqueados para manter a consistência, modelos de UI cristalizados pelo bem da fidelidade ao design system. A matemática ficou polida. O processo ficou afastado da realidade que o código e o produto exigiam.

Há um exemplo que ilustra isto com precisão: as bibliotecas de componentes multi-marca e multi-plataforma. A solução ideal seria uma única biblioteca de componentes onde os tokens se aplicam e alteram o componente para servir múltiplas marcas e múltiplas plataformas. O Figma simplesmente não suporta a quantidade de tokens necessários no último layer de component tokens. Por isso, os designers construíram workarounds. Adicionamos mais epiciclos. A arquitectura ficou mais complexa para compensar o que a ferramenta não conseguia fazer.

Estamos a encaixar as nossas necessidades nas limitações da ferramenta.

O AI vai substituir-nos a todos. Ou será que vai?

O vibe coding chegou e forçou algo inesperado.

Quando um designer usa o Claude, o Cursor ou o Lovable para construir uma app, a ferramenta pede coisas diferentes do que o Figma pedia. Pede regras. Pede estados. Pede lógica.

O que acontece quando o utilizador clica aqui e a API falha? Como é que estes dados se comportam em mobile? Qual é o fluxo de erro se o input for inválido?

O designer é forçado a pensar na arquitectura de informação, no modelo de dados e no fluxo de interacções antes de pensar na cor do botão. A função regressa ao centro. A UI passa a ser a última camada, não a primeira.

E com isso, a barreira mudou.

Com o Figma, a pergunta era sempre: isto é possível de fazer na ferramenta? Com o vibe coding, essa pergunta desapareceu. A limitação deixou de ser técnica e passou a ser criativa e sistémica. O que o designer consegue pensar, a ferramenta consegue construir.

É o equivalente a substituir o modelo geocêntrico pelo heliocêntrico. Não é que o Sol seja melhor do que a Terra. É que mudar o ponto de referência simplifica tudo o resto.

Nicolau Copérnico e, mais tarde, Johannes Kepler mudaram o jogo com outra ferramenta: a hipótese heliocêntrica e as órbitas elípticas. Ao mudar o ponto focal (o Sol no centro), centenas de equações e epíciclos redundantes desapareceram num piscar de olhos. A física regressou à sua função essencial: explicar o movimento dos astros da forma mais simples e elegante possível.

Mas Copérnico não resolveu tudo de imediato

A mudança de modelo não é automática nem isenta de riscos.

Construir rápido não é construir a coisa certa. Quando a fricção para ver algo funcional caiu para zero, o gatilho para começar a construir tornou-se demasiado rápido. O perigo mais real do vibe coding não é técnico: é o designer saltar a fase de investigação e validação porque é mais gratificante construir do que perguntar. Chega-se muito mais depressa à solução certa do problema errado.

O happy path não é o produto. As LLMs são excelentes a gerar o fluxo principal. Mas um produto real vive nos edge cases, nos estados de erro e na acessibilidade. Um designer sem background técnico pode não saber que perguntas fazer para cobrir esses cenários. O resultado parece funcional à superfície e é frágil por dentro.

A UI não é cosmética. Adiar o polimento visual para o fim assume que qualquer interface serve para validar a lógica. Não serve. A affordance de um botão, o contraste, a hierarquia tipográfica e o feedback de animação são pistas cognitivas sobre como a função funciona. Uma má UI pode invalidar um teste de UX não porque a lógica está errada, mas porque a interface falhou em comunicar essa lógica.

A ferramenta não é a profissão

O vibe coding não devolve automaticamente o designer à essência da profissão.

Revela que a essência sempre esteve lá, à espera. O que muda é o que a ferramenta deixa de proibir.

Ptolomeu não estava errado porque era pouco inteligente. Estava errado porque o seu modelo tornava impossível ver o que estava à frente. Quando Copérnico mudou o ponto focal, centenas de equações redundantes desapareceram. A física voltou à sua função: explicar o movimento dos astros da forma mais simples e elegante possível.

O design sempre foi sobre resolver problemas. Não sobre alinhar vectores.

O que o vibe coding está a fazer é tirar o Figma do centro. E quando a ferramenta deixa de ser o centro, o problema volta a ser o centro.

Isso não é uma tendência nova. É um regresso.

02.06.2026

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