Frank Gehry tinha um problema que a arquitectura não conseguia resolver.
Nos anos 90, Gehry queria construir edifícios com curvas que nenhuma ferramenta de arquitectura sabia descrever. O Guggenheim de Bilbao, com a sua pele de titânio ondulada, era literalmente indesenhável. Não havia forma de descrever aquelas curvas com precisão, nem de as traduzir nas dezenas de milhares de placas de titânio (cerca de 33.000 de 80×115 cm), cada uma com uma forma única, que o iam revestir.
A solução não veio da arquitectura. Veio da aeronáutica.
Gehry adoptou o CATIA, um software criado pela Dassault para modelar a fuselagem de caças de combate. Percebeu que descrever a curva de uma asa e descrever a curva de um edifício eram, no fundo, o mesmo problema. Ao aprender a ferramenta e a lógica do engenheiro aeronáutico, tornou possível a sua própria arquitectura.
Repara no que ele não fez.
Não deixou de ser arquitecto. Não passou a construir aviões. Não substituiu os engenheiros da Dassault. Pegou noutra disciplina para expandir a sua, e respeitou-a tanto que acabou por fundar uma empresa de tecnologia para a levar mais longe.
Conhecer o trabalho do outro tornou o trabalho dele melhor, sem que precisasse de tirar o lugar a ninguém.
O que está a acontecer agora
Esta história descreve exactamente o que a IA está a fazer aos papéis nas equipas de produto. E o que está a fazer nem sempre é o que parece.
A IA colapsou a distância entre disciplinas. Hoje, um designer faz vibe coding e tem uma app a funcionar. Um product manager abre o Figma e monta um protótipo. Um engenheiro gera a interface, escreve o copy, e dispensa o marketing. De repente, toda a gente consegue produzir o artefacto de toda a gente.
À superfície, parece o Gehry. Cada um a esticar-se para lá da sua fronteira, a ficar mais completo.
Na maioria das vezes, não é.
A diferença entre aprender e ocupar
Gehry aprendeu a disciplina do engenheiro aeronáutico para decidir melhor na sua própria pista. Continuou a ser o arquitecto. O engenheiro continuou a ser necessário.
A versão acelerada pela IA é diferente. Tenta que produzas o output do outro sem o julgamento do outro, e que dispenses a pessoa que tinha esse julgamento. Conseguir gerar uma interface não faz de ninguém designer, como fazer um churrasco não faz de ninguém chef.
A ferramenta pôs a execução ao alcance de qualquer um, mas dominar o problema que ela resolve continua a levar anos.
O trabalho que desaparece sem se dar por ele
Há um custo escondido nisto, e é o mais perigoso.
Quando um product manager passa o dia a fazer protótipos, o trabalho que o define deixa de ser feito: a clarificação do problema, o alinhamento entre disciplinas, a decisão sobre o que merece existir. É um trabalho que não se vê e que ninguém aplaude, mas é muitas vezes ele que decide se um produto vive ou morre.
Vi há dias alguém resumir isto melhor do que qualquer relatório. Tinha quatro apps publicadas na App Store e mais cinco em desenvolvimento. A receita total de todas juntas era zero. Os utilizadores, nas palavras dele, eram mais ou menos a mulher e um tipo na Finlândia que ele suspeitava ter descarregado a app por engano. Construiu tudo. Não interessou a ninguém.
E aqui está o que mais me preocupa. As empresas raramente falham por construir devagar. O que costuma matá-las é tornarem-se extraordinariamente eficientes a construir a coisa errada.
A IA é a melhor aceleradora de sempre. Também acelera isto.
Repara na ordem do lado do Gehry. A pergunta veio primeiro: que edifício vale a pena construir. O CATIA veio a seguir, para a servir. Nunca à frente dela.
A versão boa existe
Quero exactamente o contrário de encerrar cada um na sua caixa.
O designer que entende engenharia toma melhores decisões. O product manager que percebe design chega a problemas mais afiados. E um engenheiro que passou uma tarde a ver utilizadores reais a falhar com o produto escreve, no dia seguinte, outro código. Conhecer a pista do lado torna-te melhor na tua.
Isso é o Gehry. A linha é subtil, mas é tudo o que importa: aprende o trabalho do outro para decidires melhor no teu, sem cair na ilusão de que já não precisas dele.
Eu sinto isto na pele. Ando há meses a construir uma app de treino de corrida sozinho, com IA. Sou o designer, o developer, o product manager e o único utilizador de testes. É embriagante, e é também uma armadilha: nos dias maus, produzo depressa a coisa errada, muito bem feita.
A IA pode não me ter dado o julgamento do meu colega, mas deu-me as ferramentas dele e o acesso ao que ele sabe. Aprender a usá-lo bem continua a ser trabalho meu.
E é por isso que conhecer o trabalho do outro é o que nos mantém a precisar uns dos outros.
Notas e fontes
Priceonomics — The Software Behind Frank Gehry’s Geometrically Complex Architecture
The B1M — The Guggenheim Bilbao was revolutionary
Dezeen — Guggenheim Museum Bilbao
Dassault Systèmes — Frank Gehry, CATIA and the Digital Making of Guggenheim Bilbao
